segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Tua Boca

A tua boca. A tua boca. 
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Immense et Rouge


Immense et rouge 
Au-dessus du Grand Palais 
Le soleil d'hiver apparaît 
Et disparaît 
Comme lui mon coeur va disparaître 
Et tout mon sang va s'en aller 
S'en aller à ta recherche 
Mon amour 
Ma beauté 
Et te trouver 
Là où tu es. 

Jacques Prévert

domingo, 23 de outubro de 2016

Abraça-me


Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sábado, 20 de agosto de 2016

Dia 113. (excerto)


Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti,
e o meu olhar beija-te. Canto, e é a ti que canto.
E isso diz-me que, provavelmente, já te amo
desde o tempo em que as estrelas ainda não
repetiam o teu nome.

Joaquim Pessoa, in ANO COMUM

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

SEM TI


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

EUGÉNIO DE ANDRADE, in CHUVA SOBRE O ROSTO, (Modo de Ler/Ed. Afrontamento, 2009)

Em nome


Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in DUAL (1ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1972), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010; Assírio & Alvim, 2015)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos


Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.


Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

FRONTEIRA


Não sei a que sabe a tua boca
desconheço a força dos teus braços
o odor da tua pele
a textura dos teus dedos.
Mas sei o calor da tua voz,
que me aquece, me percorre
e me desperta.

Sei que é em ti que procuro
a água que sacia a minha sede
o sol que ilumina o meu rosto
a ternura que me é recusada
o sonho que me é negado.

Sei que é ténue a linha que separa os nossos corpos,
quando, em pensamento, nos envolvemos
e amamos.

FÁTIMA GUIMARÃES, in A VOZ DO NÓ (ed. da Autora, 2014)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Ainda não te perdi e já tenho saudades tuas


Ainda não te perdi e já tenho saudades tuas.
Da tua voz. Do teu cheiro. Da tua roupa espalhada
pela casa. A nossa história de tão verdadeira, é fictícia.
Foi animada como uma noitada com amigos. Hoje,
é um caso arquivado. Onde estivemos todos estes anos?
Que diferença faz a indiferença? O nosso entusiasmo
do tamanho do mundo é agora uma aldeia estranha,
um espaço acanhado onde ninguém se reconhece.
Nunca tivemos a coragem de pisar o risco, de trocar
todos os dias por cada um dos nossos dias.
A tua juventude e a minha juventude não voltarão
a tocar-se, vamos a caminho de outro tempo.
Um tempo onde não há tempo para voltar atrás.

Joaquim Pessoa, em "Ano Comum"

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

DIA 88


DIA 88

Se pudesse, fazia-te uma casa de vidro.
Se pudesse, fazia-te uma casa de lã.
Se pudesse, fazia-te uma casa de beijos.
Se pudesse, fazia-te uma casa de versos.
Se pudesse, fazia-te.

JOAQUIM PESSOA, in ANO COMUM (Litexa, 2011, 1ª ed.; Edições Esgotadas, 2013)