domingo, 14 de janeiro de 2018

ABRIGO


Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado
.
há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço
.
Há dias em que nego
e outros onde nasço
.
há dias só de fogo
e outros tão rasgados
.
Aqueles onde habito
com tantos dias vagos.

MARIA TERESA HORTA, in MINHA SENHORA DE MIM, (Ed. Futura, Lisboa, 1974), in in POESIA REUNIDA (Publ. D. Quixote, 2009)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Estou mais perto de ti porque te amo


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho


Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado


Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.


ANA HATHERLY, in A IDADE DA ESCRITA (Ed. Tema, 1998)

sábado, 10 de junho de 2017

Um Beijo


Um beijo é uma boa ideia.

Dá-me,
então, um beijo.
Não me faz falta
mais nada.


Joaquim Pessoa, no livro "O Poeta Enamorado" (Os Poemas de Amor)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Tua Boca

A tua boca. A tua boca. 
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Immense et Rouge


Immense et rouge 
Au-dessus du Grand Palais 
Le soleil d'hiver apparaît 
Et disparaît 
Comme lui mon coeur va disparaître 
Et tout mon sang va s'en aller 
S'en aller à ta recherche 
Mon amour 
Ma beauté 
Et te trouver 
Là où tu es. 

Jacques Prévert

domingo, 23 de outubro de 2016

Abraça-me


Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sábado, 20 de agosto de 2016

Dia 113. (excerto)


Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti,
e o meu olhar beija-te. Canto, e é a ti que canto.
E isso diz-me que, provavelmente, já te amo
desde o tempo em que as estrelas ainda não
repetiam o teu nome.

Joaquim Pessoa, in ANO COMUM

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

SEM TI


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

EUGÉNIO DE ANDRADE, in CHUVA SOBRE O ROSTO, (Modo de Ler/Ed. Afrontamento, 2009)

Em nome


Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in DUAL (1ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1972), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010; Assírio & Alvim, 2015)