quinta-feira, 5 de abril de 2018

VII


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Esta noite faço puzzles de ti – junto uma peça e outra, de entre milhares de palavras, gestos, frases, sinais e canso-me na busca incessante daquela combinação de peças que me aquietaria a alma e que eu nem sei qual é. Sinto uma mágoa que dói em mim, como se por isso ela te poupasse da dor de um olhar de raiva que te rasgasse a pele. Mas o eco dessa dor parece-me tão difícil de suportar que prefiro guardá-la dentro de mim, tão silenciada, tão amarrada. Ponho-a cá fora devagar, sobretudo em pensamentos porque estes não magoam, são ar…pensamentos que te constroem e reconstroem em puzzles que buscam histórias que me dêem um lugar, em que não fique nenhuma peça de fora e o final possa ser feliz.

MARIA JOÃO SARAIVA, in A DOR QUE ME DEIXASTE, (Coisas de Ler., 2ª ed, 2011)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

XI


Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

EUGÉNIO DE ANDRADE, in AS MÃOS E OS FRUTOS (1948), in POESIA (Modo de Ler, 2011)

Espera


Ainda não chegaste
E já não vens…
E a noite fala-me de ti
Sem te saber,
Procuro no silêncio
Alguma voz
Para as palavras
Que ficaram por dizer.
Amanhã, ao acordar,
Serei só minha,
Sem esperas nem procuras
Apenas eu!
Hoje, deixa-me ser tua
Enquanto é sonho.
Chamar assim por ti,
Sem seres meu!

ANA HOMEM DE ALBERGARIA, in NADA DIREI SOBRE O SILÊNCIO (Edium Ed., 2014)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SEGREDO


Quebrados
o vazio e o silêncio das águas,
segredo-te
que
o que tenho para te oferecer
nesta tarde apenas desenlaço
na intimidade dos ventos.


LÍLIA TAVARES, in EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS (Seda Publ., 2015)

MEDITAÇÃO


Loucura esta
o instante
em que me perco no teu corpo

FÁTIMA GUIMARÃES, in A VOZ DO NÓ (Ed. autora, 2014)

domingo, 14 de janeiro de 2018

ABRIGO


Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado
.
há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço
.
Há dias em que nego
e outros onde nasço
.
há dias só de fogo
e outros tão rasgados
.
Aqueles onde habito
com tantos dias vagos.

MARIA TERESA HORTA, in MINHA SENHORA DE MIM, (Ed. Futura, Lisboa, 1974), in in POESIA REUNIDA (Publ. D. Quixote, 2009)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Estou mais perto de ti porque te amo


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho


Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado


Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.


ANA HATHERLY, in A IDADE DA ESCRITA (Ed. Tema, 1998)

sábado, 10 de junho de 2017

Um Beijo


Um beijo é uma boa ideia.

Dá-me,
então, um beijo.
Não me faz falta
mais nada.


Joaquim Pessoa, no livro "O Poeta Enamorado" (Os Poemas de Amor)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Tua Boca

A tua boca. A tua boca. 
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'