quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Eu não sei se estiveste ausente


Eu não sei se estiveste ausente.
Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.
Nos meus sonhos tu estás junto a mim.
Se estremecem os brincos das minhas orelhas
eu sei que és tu que te moves no meu coração.

(México, Nahuas)

domingo, 10 de novembro de 2013

NO SILÊNCIO DE UMA LÁGRIMA


escrevo-te...
... nem sei porque te escrevo

escrevo-te sem guião,
meras palavras que entenderás ou que talvez
flutuem perdidas numa folha de papel amarfanhada

escrevo-te sem intenção que não seja
a de escrever
o que talvez nunca crescesse num jardim abandonado

escrevo-te a flor, o amanhecer, a tristeza e a dor,
o encontrar e o perder
escrevo-te a vida, a tua e a minha, escrevo-te os dias
e as noites sem fim

escrevo-te... nem sei porque te escrevo...

no silêncio de uma lágrima escrevo-te
as rugas da minha alma
e as sombras que me vestem o tempo

JOÃO CARLOS ESTEVES, in INVENTEI-TE AS MANHÃS (Chiado Ed., 2013)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

NESTE OUTONO


Neste outono, as pedras agasalham-se no cobertor
do musgo; e o barro bebe a água; e o vento viaja rente
aos muros. Mas eu, sem ti, deito-me gelada sobre a cama
e digo palavras que queimam a boca por dentro ― amor,

saudade, o teu nome e os nomes das coisas que tocaste
(e sobre as quais deixo crescer o pó, para que os dias
não se decalquem sempre de outros dias). Fecho os olhos

depois sobre a almofada e vejo o rosto branco da casa
desenhar-se à medida da tua ausência: as janelas abrem-se
para a solidão dos becos e há um farrapo de luz sobre a porta
a que ninguém virá bater. Pergunto-me onde anda a tua
sombra quando aqui não estás. E tenho medo. São estes

os solavancos de uma vida pequena ― bordar uma toalha
para logo a manchar de vinho, sentir a ferida na distância
do punhal, viver à espera de uma dor que há-de chegar.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

DE MÃOS ABERTAS


Se eu pudesse,
Tocava o teu rosto em silêncio
E falava-te do mar,
Deixava tombar os meus cabelos
Sobre o teu ombro
Como uma bênção
E fechava os olhos
Consciente de ser em ti
Como um salgueiro.

ANA BRILHA, in A APOLOGIA DO SILÊNCIO (ed. da Autora, 2012)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

QUANDO VIER A PRIMAVERA


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

ALBERTO CAEIRO, in POEMAS INCONJUNTOS. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.[ (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994]

domingo, 3 de novembro de 2013

Estou diariamente à tua espera


Estou diariamente à tua espera
Como quem espera um astro pela noite.
Defino-te em segredos.
Revejo-te na memória.
Desenho a tua fronte nas estrelas.
Invejo-te.
Construo a tua boca sem palavras.
Construo este silêncio em que me prendo.

JOÃO RUI DE SOUSA, in CIRCULAÇÃO (Lisboa, Liv. Moraes Ed., 1960), in OBRA POÉTICA [(1960-2000), Dom Quixote, 2002]

APETECE


Apetece dizer e não sei dizê-lo
Apetece querer e não sei almejar sequer
Apetece abraçar e não sinto o outro lado entrega
Apetece gritar, mas a rouquidão trai o sentir
Apetece sair....partir...ir onde nunca fui
Apetece correr a memória esquecida e escrever
Apetece tanto....e tanto é um grama de matéria pó
Apetece sorrir no meio das lágrimas secas
Apetece e já nada apetece no esvair do viver
Apetece dizer e não sei dizê-lo!

JOSÉ LUÍS OUTONO, in MAR DE SENTIDOS, prefaciado por Joaquim Pessoa (Ed. Vieira da Silva, 2012)

sábado, 2 de novembro de 2013

PALAVRAS MINHAS


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

PEDRO TAMEN, in TÁBUA DAS MATÉRIAS - POESIA 1956-1991 (Tertúlia, 1991)

Dá-me a tua mão


Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

JOSÉ GOMES FERREIRA, in POETA MILITANTE I (Ed. Dom Quixote, 1990)