quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira
Habitas-me
Habitas-me
como a uma casa
de um só quarto
no alto de uma falésia;
Como a ventania
irrompe na floresta, cavando clareiras
ou devagar vai esculpindo luas
nas areias.
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler, 2012)
terça-feira, 30 de julho de 2013
Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado
Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde
Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.
ANA HATHERLY, in A IDADE DA ESCRITA (Ed. Tema, 1998)
domingo, 28 de julho de 2013
I
Preciso escrever-te, ou escrever-me, falar-te ou dizer-te através de mim e tudo isso num tempo intemporal, em que escrevo para a frente apenas porque algo nos faz crer que a vida, ou melhor, que um dia atrás do outro é ir para a frente, sabe-se lá... mas o meu mergulho é para trás, no meu tempo que foi de descoberta, um tempo que se desdobra a partir de outro e de outro... porque é lá atrás que te vou encontrar, é apenas tão-somente lá atrás que te posso resgatar, porque a ideia do amanhã contigo foi-se-me (ou quase); foi-se-me no dia em que abriste os braços para já não me abraçar. E agora, vou mergulhar, mergulhar num mar de maré cheia, onde toco o que lá vive, um mar que está cá dentro, dentro de mim, onde te vejo e onde navegam todos os afectos que me unem a ti – é neles que vou buscar a forma que dou a estas palavras, com que quero falar-te, dizer-te, baixinho.
MARIA JOÃO SARAIVA, in A DOR QUE ME DEIXASTE (Coisas de Ler, Ed., 2ª ed, 2011)
sábado, 27 de julho de 2013
POST SCRIPTUM
Afasto de ti com
raiva surda
o corpo
as mãos
o pensamento
e apago secreta
uma a uma
as velas acesas do teu vento
liberta ponho o corpo
em seu lugar
visto a cidade
penteio um rio sedento
penso ganhar
e fujo
e não entendo
penso dormir
mas não consigo
o tempo
E cede-se o vazio
sobre o meu ventre
e segue-se a saudade
em seu sustento
E digo este meu vício
dos teus olhos
de um verde tão lento
muito lento
Se penso que te deixo
já te quero
Se penso que recuso
já te anseio
Se penso que te odeio
já te espero
e torno a oferecer-te
o que receio
Se penso que me calo
já te grito
Se penso que me escondo
já me ofereço
Se penso que não sinto
é porque minto
Se pensas que me olhas
já estremeço.
MARIA TERESA HORTA, in MINHA SENHORA DE MIM ( D. Quixote, 1971), in POESIA REUNIDA (D. Quixote, 2009)
GOSTO
Gosto de passear na tua sombra,
poder te ver, sem tu me veres,
de estar contigo, sem tu saberes,
Gosto de me esconder na tua ausência,
de ser teu sonho, sem me sonhares,
viveres comigo, sem o julgares,
Gosto de me enlear na tua teia,
de ser teu cúmplice, sem que me prendas,
ser teu escravo, sem que me vendas,
Gosto que gostes de ser viagem,
e ao me encontrares,
eu ser paragem…
JOSÉ GABRIEL DUARTE, in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS, prefaciado por Joaquim Pessoa, (Coisas de Ler Ed., 2012)
quinta-feira, 25 de julho de 2013
SEM TI
E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos, sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.
EUGÉNIO DE ANDRADE, in CORAÇÃO DO DIA (1958), in POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (Modo de Ler, 2011)
quarta-feira, 24 de julho de 2013
O SONO RETIROU-SE DO MEU CORPO E AS CIGARRAS
O sono retirou-se do meu corpo e as cigarras
atormentam as minhas noites. Depois de teres
partido, os lençóis da cama são como limos frios
que se agarram à pele. Porém, se me levanto,
não faço mais do que arrastar a solidão pela casa;
talvez procure ainda um gesto teu nos braços
do silêncio, como um pombo cego a debicar
as sombras na única praça deserta da cidade —
o amor nunca aprendeu a ler nas linhas da mão.
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO DOS CIPRESTES (Gótica, 2001)
segunda-feira, 22 de julho de 2013
DA ALMA SÓ SEI O QUE SABE O CORPO
Da alma só sei o que sabe o corpo:
onde a esperança e a graça
aspiram ao ardor
da chama é a morada do homem.
Vê como ardem as maçãs
na frágil luz de inverno
uma casa devia ser
assim: brilhar ao crepúsculo
sem usura nem vileza
com as maçãs por companhia.
Assim: limpa, madura.
EUGÉNIO DE ANDRADE, in OFÍCIO DE PACIÊNCIA (1994), in POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (Modo de Ler, 2011)
domingo, 21 de julho de 2013
6
Este amor está preso aos pés da terra,
o seu caule é de ferro,
cresce na minha boca, estremece e resiste
nas frágeis construções
da nossa antiga, privada, fiel
arquitectura.
ARMANDO SILVA CARVALHO, in DE AMORE (Assírio & Alvim, 2012)
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