sábado, 2 de março de 2013

UM AMOR


Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão.
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus, do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.


Nuno Júdice
in «Poesia reunida 1967 - 2000»,
"A Partilha dos Mitos" [1982],
Pref. Teresa Almeida, D. Quixote

NUNCA AS COISAS MAIS SIMPLES


Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.


Nuno Júdice
in «Poesia Reunida 1967-2000»

Desfecho



Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente,
Do teu vulto calado,
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando, alguém lhe perturba a solidão                                                                                                      Fechado num ouriço de recusas,                                                                                                     Soltei a voz, arma que tu não usas,                                                                                                    Sempre silencioso na agressão.                                                                                                 Mas o tempo moeu na sua mó
                                                                                                        O joio amargo do que te dizia...
                                                                                                        Agora somos dois obstinados,
                                                                                                        Mudos e malogrados,
                                                                                                        Que apenas vão a par na teimosia.


                                                                                                                   Miguel Torga, Câmara Ardente

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pedra Filosofal




Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, António Gedeão, 1956

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

POEMA A DESPEDIDA


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

MIA COUTO, in RAÍZ DO ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 1999)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

OLORES


Os lábios da manhã trouxeram o teu beijo alvo,
Como alvas são as pétalas das rosas
Que caem sobre mim, todas as noites.
Levam-me a ti, no olor do silêncio
Onde escrevo nas formas, o teu corpo
Do toque, as tuas mãos.
Sou-te íntima, nestes cândidos recantos
Respiro-te nas rosas brancas que adornam o meu sonho
Visto-me do teu sorriso, nos lençóis vagos do tempo
Ilumino a minha nudez com o brilho dos teus olhos...

CECÍLIA VILAS BOAS, in O ECO DO SILÊNCIO (Esfera do Caos, 2012)

SONETO DO CATIVO


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

DAVID MOURÃO-FERREIRA, in OBRA POÉTICA (Ed. Presença, 1988)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O DIA


Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in ILHAS ( Texto Ed., 1989 ), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)