quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Poema LXVI


Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te te rogo,
e a medida de meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

Pablo Neruda,  Cem sonetos de amor

terça-feira, 11 de agosto de 2015

MUSICA MIRABILIS


Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

- e desperte o lume.

EUGÉNIO DE ANDRADE, in MAR DE SETEMBRO (Limiar, 1977) , in POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (Modo de Ler, 2011)

Quero-te Apenas Porque a Ti Eu Quero


Não te quero senão porque te quero 
e de querer-te a não querer-te chego 
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumirá talvez a luz de Janeiro,
o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

TOCA-ME


Toca-me.
Sê em mim o começo
a alegria e a festa
Toca-me de leve
como um sopro
para que me incendeie
e te ilumine de raios
tempestades, emoções
Rouqueja-me os sons
do teu absoluto
e morre comigo
desta vez

EDGARDO XAVIER, in CORPO DE ABRIGO (Temas Originais, 2011)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

NOITE


Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in MAR NOVO (1958) in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Príncipe


Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

terça-feira, 4 de agosto de 2015

TARDE


O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in NO TEMPO DIVIDIDO (1ª ed., Guimarães Ed., 1954), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010; Assírio & Alvim, 2015)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sujei o teu nome


Sujei o teu nome
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o


O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconhecia a minha voz
Ai que deserta liberdade

Preso de novo
que rede tamanha
de laços e vozes
Um eco talvez
Um eco incessante

ANTÓNIO RAMOS ROSA, in MATÉRIA DE AMOR (Ed. Presença, 1983)

domingo, 2 de agosto de 2015

A BRASA DO TEU CORPO


A brasa do teu corpo

a queimar a palma
acesa
da mão do meu desejo

MARIA TERESA HORTA, in AS PALAVRAS DO CORPO (Publ. D. Quixote, 2012)

EM FRENTE DO MAR


Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou a nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.

NUNO JÚDICE, in O ESTADO DOS CAMPOS (Pub. Dom Quixote, 2003)